Hoje vou abrir o baú do tempo e lembrar algumas coisas que vivi nos anos 60, os incríveis Anos Dourados tão bem retratados na música "Velhos Tempos, Belos Dias", que o parceiro pode ver e ouvir com Roberto Carlos e a turma da Jovem Guarda, dando um clique lá embaixo, conforme indicação. Guardo lembranças bem vivas do tempo em que morei em São Paulo de 1965 a 1967. Cheguei à Capital Paulista no dia 1º de abril de 1965, e voltei para Londrina no dia 23 de dezembro de 1967. Morei um ano na ACM - Associação Cristã de Moços, na Rua Nestor Pestana nº 147, onde trabalhei e fiz o curso de Executivo da ACM com três anos de duração, complementado em 1968 com um estágio prático em Belo Horizonte.
1965 foi um ano de grandes experiências. Depois, deixei o quarto da ACM juntamente com meu parceiro corinthianoi Audorivaldo Leite para morar, por outros três meses, num "muquifo" localizado na famosa Rua Maria Antonia, em frente ao Mackenzie. Ali estava o olho da efervescência estudantil dos primeiros anos da ditadura militar (a Maria Antonia e a Consolação foram as últimas ruas por onde circulou o bonde em São Paulo). Dali guardo também poucas, mas boas recordações. Nos últimos dois anos morei na Pensão da Nanci, a Dona Nança, localizado no centro da esfuziante "Boca do Lixo", na Rua Barão de Limeira esquina com General Ozório. Ali sim, a jurupoca piou pra valer. O prédio era o já decadente Palacete Cesar Rudge, construido à época dos barões do café, com uma impressionante escadaria de mármore importado de Carrara, Itália, e lustres maravilhosos. Ficava próximo à famosa esquina da Ipiranga com a São João, cantada por Caetano Veloso. Na Pensão da Nança morei inicialmente com o parceiro Leite e batizamos nosso mocó de "Solar dos Justos", o que não fazia muito sentido, pois "solar" é residência de nobres e nosso sangue é vermelhinho, nunca teve nada de azul. Algum tempo depois, Leite foi embora e em seu lugar eu levei para o "Solar" os parceiros José Carlos Duarte, (o Tenente Bunda), e o boliviano Roberto Uria Mendes, que logo apelidei de Pancho. O quarto era amplo, pode-se dizer uma suíte, pois cabiam três camas e tinha até banheiro interno, um privilégio. Quando regressei a Londrina em dezembro de 1967, assumiu om meu lugar na pensão o parceiro londrinense Pedro Afonso Scucuglia, o Pedrinho Cascuia. São Paulo para mim era outro mundo e já no dia de minha chegada em 1º de abril de 1965, dia do primeiro aniversáriop da famigerada "Redendentora" ,uma surpresa marcante: os meus companheiros de curso da ACM me levaram a assistir um espetáculo de patinação no gelo no Ginásio do Ibirapuera, a famosíssima companhia americana Holliday On Ice, o que me deixou extasiado. DUREZA E ALEGRIA O ano de 1965 revelou-se extremamente difícil. A Nestor Pestana, onde morei primeiro, é uma rua com não mais de 300 metros de extensão, onde havia de tudo, até com certa contradição. A rua começa na Consolação e segue em curva até o início da Augusta. No ponto central da curva estavaa localizadas, de um lado, a sede central da ACM de São Paulo, e no outro lado da rua, bem em frente, a Catedral Evangélica de São Paulo, da Igreja Presbiteriana Independente. Do mesmo lado da igreja, já no final da curva, a TV Excelsior Canal 9, em frente ao Restaurante Gigheto, um dos mais famosos de São Paulo. A Nestor Pestana possuía ainda edifícios residenciais, comerciais e mistos, um antiquário, uma lavanderia,m um pequeno bar/restaurante do português Moreira, boates e outros estabelecimentos interessantes. Assisti a construção e inicio de funcionamento do Restaurante Ediuardo's, ao lado da Catedral Evangélica e convivi durante as 24 horas do dia, por um ano inteiro, com a construção de um moderno edifício de garagens para automóveis, ao lado do prédio da ACM. No térreo deste edifício foi instalada a famosa boate Ton-Ton Macoute (nome da temida guarda pessoal do ditador Maurice Duvalier, o Papa Doc, do Haiti), tendo à frente verdadeiros "armários embutidos" como "leões de chácara". Nas noites de sextas-feiras, sábados e domingos , eu assistia,a babando, verdadeiros desfiles de carros importados, a maioria esportivos, sonhos de consumo como Ferrari, Porshe, Alpha Romeu, Lamborghini, Jaguar, Mustang, Camaro, até os imponentes Chevrolet Impala e por aí afora. O edifício-sede da ACM possui doze andares. Do sexto andar até o último funcionava a ala residencial, com pequenos quartos destinados a estudantes que moravam no interior. Por abrigar grande contingente de jovens geralmente rebeldes, que deixavam as casas de seus pais para estudar num grande centro, ali estava uma extraordinária concentração de problemas e aprontos, mas sobre isto falaremos oportunamente. Jovem Guarda e Vanguarda
Num dos meus primeiros fins de semana em São Paulo, levei um grande su
sto. Num domingo à tarde eu lavava e passava cuecas, meias, camisas e calças (o salário não me permitia o luxo de pagar lavagem de roupa), quando ouvi uma gritaria infernal na rua. Corri à janela para ver o que acontecia e lá estavam centenas de jovens cercando a Jovem Guarda que chegava à TV Excelsior para os programas das alegres tardes de domingo. A histeria tomava conta dos fãs que amarrotavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderléia, Vanderlei Cardoso, Jerry Adriani, Ronnie Von, Os Incríveis e outros ídolos JG, quando desciam de seus carrões para entrar na TV. De meu quarto no 6º andar e posteriormente 9º , assisti a tudo isso com vontade de participar também, sem poder. Isto se repetiu todos os domingos, pelo tempo em que morei na Nestor Pestana.
(CLIQUE AQUI).Pouco tempo depois fui conhecer o Teatro de Arena, onde assisti a peça Arena Canta Zumbi, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, com música de Edu Lobo. E lá estava o mineirinho jacú do Norte do Paraná, em plena ditadura militar, vendo bem de pertinho alguns ícones do teatro brasileiro. O elenco de Arena Conta Zumbi era composto por Gianfrancesco Guarnieri (que muitos anos mais tarde tive a imensa alegria de receber em minha casa, aqui em Londrina), Lima Duarte, Marília Medalha, Dina Sfat, Antero de Oliveira, David José, Vanya Sant'Anna e Chant Dessian. Em 1967 assisti também a peça Arena Conta Tiradentes, também da dupla Boal e Guarnieri.
Volto para a Nestor Pestana e lá está o Bar do Moreira, que era também restaurante. A gente comia no balcão mesmo. O simpático português, "Seo" Moreira, matava nossa fome com o prato feito "Jesus me Chama", pendurando a conta para só receber no final do mês. Às quartas-feiras ele servia dobradinha e nesse dia era ali que o amigo Paulo "Goiaba" Tarcísio matava sua fome. Ele era louco por dobradinha.
Na Nestor Pestana havia a figura marcante do "Considerado", um corinthiano mulato de cabelos grisalhos, misto de andarilho e lavador de carros, que no alto de seu metro e oitenta e ar de impoluta dignidade, abordava as pessoas em françês com foz forte e rouca: "Comment allez vous, ô Considerado?" A mim dedicava tratamento especial quando nos encontrávamos: "Olá meu Considerado Sami Davis Júnior"!, pronunciando assim como escrevi. Ele me achava parecido com o cantos/ator Sammy Davids Jr.
O dia mais triste do Considerado foi quando o Santos sapecou 7 x 4 no Corinthians, no Pacaembu, com 4 gols de Coutinho e 3 de Pelé. Eu assistio a esse jogo, mas isto fica pra outro dia. Como se pode perceber, tenho guardado no meu baú grandes momentos vividos num tempo maravilhoso, que contarei aos poucos.
"Velhos tempos, Belos dias", sem dúvida!!!