ESPORTE NO BRASIL
ESPORTE NO BRASIL Lélio Cesar[Photo] OLIMPÍADASComeçou em Pequim a maior Olimpíada da era moderna. Foi também a maior e mais a bela abertura de todas as olimpíadas realizadas até hojeQuando se diz assim é preciso não esquecer de guardar as devidas proporções. Cada época é uma época e cada olimpíada, uma olimpíada. Provavelmente daqui a quatro anos se dirá a mesma coisa: “a maior e mais bela abertura de todas as olimpíadas”.Por quê? Porque a evolução é permanente, os recursos técnicos são renovados a todo instante. E se renova também a capacidade do ser humano de criar e inovar. Em Pequim, a participação do ser humano parece ter superado o da tecnologia.O Brasil está presente mais uma vez com a sua maior delegação. Assim também acontece de quatro em quatro anos. Para cada Olimpíada, um número maior de atletas representa o país, mostrando que o esporte também está evoluindo no Brasil. Mas, podia ser melhor.ESPORTE, INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO E FORMAÇÃOInfelizmente os governates brasileiros por décadas seguidas não conseguiram alcançar a dimensão da força do esporte e da educação como instrumentos para a evolução de um povo e a sua verdadeira independência, que somente se dá com a eliminação das grandes desigualdades sociais.Na década de 80 eu tive a oportunidade de atuar na área do esporte como dirigente, quando no Governo José Richa exerci por quatro anos o cargo de chefe da Coordenadoria de Esportes do Estado. Nesse cargo tentei colocar em prática uma filosofia que aprendi quando cursei Educação Física na Associação Cristã de Moços de São Paulo (ACM – YMCA): a de que não existe instrumento melhor de educação para a infância e a juventude do que o esporte.[Photo][Photo] O esporte assim utilizado é uma ferramenta insuperável para se formar cidadãos saudáveis, honestos, solidários, respeitadores da ética, do direito e da disciplina, úteis à sua[Photo] família e ao seu país. A ACM, em seus mais de 160 anos atuação em quase todos os países do mundo, utiliza este princípio com base de seu programa. Não é por acaso que algumas das mais populares modalidades esportivas que hoje contribuem para a formação de seres humanos e aproximação dos povos – basquetebol (1891), voleibol (1895) e futebol de salão (hoje futsal - 1956) - foram criadas pela ACM. Os dois primeiros, nos Estados Unidos, e o futsal, no Brasil. UMA TENTATIVAQuando se implantou no Brasil a Nova República, no final de ditadura militar, juntamente com a maioria dos dirigentes estaduais de esportes no Brasil tentamos implantar uma nova filosofia no esporte brasileiro para ser aplicada pelo poder público: o esporte sendo utilizado com instrumento de formação e educação (período de 1983 a 1986). Esta nova política promoveria a democratização do esporte e a sua massificação, ou seja, daria oportunidade ao grande contingente da população de baixa renda no Brasil, que é maioria, ter acesso às atividades esportivas que, desafortunadamente, ainda é privilégio de poucos. Através de programas bem elaborados, com forte conteúdo educativo e até profissionalizante, direcionado aos mais necessitados - democratização e massificação- utilizando-se principalmente as escolas, se tiraria a criança e o jovem das ruas, da violência e da delinqüência e em contrapartida teríamos um enorme contingente de praticantes de esportes no país. Da quantidade se pinçaria a qualidade, o talento esportivo, que seria direcionado aos clubes, ligas esportivas, federações e confederações, para seu aperfeiçoamento. Com apoio da iniciativa privada grandes talentos esportivos poderiam ser desenvolvidos e aprimorados para representar o país em qualquer nível. A médio e longo prazo o país teria condições de se ombrear no esporte aos países mais desenvolvidos do mundo.Lamentavelmente, no Brasil este é um pensamento utópico. Investir em criança e jovem pobre não dá voto. Trabalhar a longo prazo não dá voto imediato. Para as cabeças pequenas de nossos governantes, esporte é um estádio de futebol, um ginásio de esportes ou uma arquibancada de uma pista de fórmula repleta de torcedores. Na verdade, este é apenas uma de suas vertentes, a vertente do esporte-espetáculo. O esporte como um todo é muito mais que isto. O esporte-formação/educação são quadras escolares, ginásios municipais e particulares, praças públicas, pistas de atletismo e até mesmo ruas da periferia, repletas de crianças e jovens praticando esporte e lazer com orientação de professores e técnicos especializados em formação, primeiro de seres humanos, e depois em atletas.Esta é uma política que não dá votos em curto prazo, não coloca ninguém nas câmaras, nas prefeituras, no senado ou na presidência da república, mas a longo prazo, colocaria o Brasil ombro a ombro com as grandes potenciais mundiais.Posso dizer com orgulho que eu tentei fazer a minha parte. Quando deixei a Coordenadoria do Esporte do Estado, em 1986, eu e minha equipe de trabalho entregamos em pleno funcionamento aos nossos sucessores um dos maiores e mais bem sucedidos programas de esporte/educação já realizados no Brasil. O programa Polarização do Esporte – Pólos Esportivos possuía em março de 1987, 135 mil crianças matriculadas em 74 pólos esportivos espalhados em 54 municípios do Estado, e uma fila de mais de 120 municípios aguardando a implantação do programa. Só na modalidade de voleibol havia 35 mil crianças matriculadas. A maioria dos estados brasileiros, incluindo São Paulo que está sempre à frente dos outros, solicitou ao Paraná cópia do projeto para sua implantação. Não chegamos a passar o projeto, porque estávamos terminando a fase de laboratório e avaliação. Dois anos depois, com nova administração, o programa estava extinto.No Brasil é assim que acontece. De um governo para o outro, as boas idéias morrem e desaparecem, porque a vaidade e a necessidade de projeção e principalmente, de votos em curto prazo, falam mais alto.O Brasil é uma potência, ninguém contesta. Quando os homens que governam a nação descobrirem a força da educação e do esporte na formação de um povo, sairemos do subdesenvolvimento, eliminaremos as nossas desigualdades sociais e marcharemos lado a lado com as grandes potências. Utopia? Quem sabe? (As imagens da abertura das Olimpiadas estão a seguir, é só ir clicando para ver).
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